Expulsem demônios — é grande alívio para o espírito de um incrédulo, oprimido pelo receio de que o evangelho talvez seja verdadeiro, encontrar a observação de algum douto colega de que as doenças ali atribuídas à operação do diabo têm exatamente os mesmos sintomas das doenças naturais da loucura, da epilepsia ou das convulsões; donde ele pronta e mui gostosamente conclui que o diabo não teve parte nelas. Mas conviria parar e considerar um pouco. Suponha que Deus permitisse a um espírito mau usurpar sobre o corpo de um homem o mesmo poder que o próprio homem tem naturalmente, e suponha que ele exercesse de fato esse poder: poderíamos concluir que o diabo não teve parte nisso, porque o corpo se curvou exatamente da maneira como o próprio homem poderia tê-lo curvado naturalmente? E suponha que Deus dê a um espírito mau um poder maior, de afetar imediatamente o órgão dos nervos no cérebro, irritando-os para produzir movimentos violentos, ou relaxando-os de modo que pouco ou nenhum movimento produzam: ainda assim os sintomas serão os de nervos excessivamente tensos, como na loucura, nas epilepsias, nas convulsões, ou os de nervos relaxados, como nos casos de paralisia. Mas poderíamos concluir daí que o diabo não teve parte neles? Afirmará alguém que Deus não pode, ou não quer, em ocasião alguma, dar tal poder a um espírito mau? Ou que efeitos semelhantes aos que podem ser produzidos por causas naturais não podem de modo algum ser produzidos por causas sobrenaturais? Se isso é possível, então quem afirma que assim foi em determinado caso não pode ser justamente acusado de falsidade, meramente por afirmar a realidade de uma coisa possível. E contudo é dessa maneira que os evangelistas são tratados por aqueles homens infelizes que, acima de tudo, temem que o evangelho seja verdadeiro — porque, se o é, eles são os mais miseráveis de todos os homens. De graça vocês receberam — todas as coisas, em particular o poder de operar milagres; de graça deem — exerçam esse poder aonde quer que cheguem (Mc 6.7; Lc 9.2).